quinta-feira, 18 de fevereiro de 2016

Desabafo de uma idiota

Ser mãe: o inferno e o paraíso dessa ingrata função

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Penso em toda essa confusão sobre o desafio de ser mãe. Aceita, não aceita. Quem é mãe, já aceitou. Porque mão é caminho sem volta.
Concordo com Juliana Reis, vinte e cinco anos, a moça que propôs o desafio de fotos reais, de momentos difíceis. Ser mãe não tem nada de fácil. A começar pela falta de manual. Acho que ser mãe, na verdade, é muito bom e ruim. É doce e bem amargo. É salgado demais, azedo em muitas horas.
Eu queria um filho. Mas ter um filho assusta. É para sempre. E se, quando saísse, eu não gostasse? Se eu não fosse com a cara da criatura? Se viesse com defeito?
A impossibilidade de devolução do produto me angustiava. Talvez por conta disso, eu tenha passado nove meses vomitando. Cheiros que eu nem sabia que existiam, agora me perseguiam e me enjoavam. O mundo cheio de novos perfumes era hostil para mim.
A primeira mexida não se esquece. Uma asinha batendo dentro de mim. Uma companhia de dentro para fora. A companhia não dormia. Mexia a noite toda.
Barriga esticando. Eu já não andava, remava pelas ruas. Parando a cada cadeira para pegar fôlego novo. Aquele quitinete estava ficando pequeno demais para nós dois. Meu filho mais velho se virava tanto que deu um nó cego no cordão umbilical. No consultório, de uns clientes ele gostava de ouvir. E ficava quieto. De outros, se revoltava, quase me saía pela boca.
Tinha medo de não dar conta. Medo de não conseguir sustentar o bebê. Tive medo do barulho da maca se aproximando, na hora do parto. Mais medo de saber que ninguém podia ir no meu lugar. Queria normal, rolou cesária.
Não estava sozinha. Mas na hora de ir para a faca, era eu e mais ninguém. Essa é a primeira e enorme sensação que me define o que é ser mãe. Inteira e completamente só para decidir sobre a vida de uma outra e indefesa pessoa. Medo.
Eu achei a criatura meio nojenta toda suja de sebo e sangue. Era mesmo para beijar? Talvez não fosse para achar desse jeito. Mas eu achei. E achei lindo quando eu falei e ele parou de chorar. Ali, naquele instante, ele ficou simpático para mim.
Carreguei nove meses. E o safado saiu a cara do pai. Trabalhei de graça, né? Lindo ele pegar o peito e me olhar com o olho meio fechado cheio de remela. A filha já nasceu de olho aberto. Sempre quis tomar conta do que acontece em volta.
Olho no olho me fascinava. Mas a falação em volta, me enlouquecia. Meu leite era fraco. Eles tinham é fome. Ouvido de mãe é pinico do mundo, o obstetra já tinha me avisado.
Tenho para sempre umas dores. Momentos de medo. A primeira febre. Filho molinho no colo. As vacinas. Eu chorava junto. Em todas. Teste do pezinho, eu saí aos prantos. Como que furam um pé daquele tamanho?
O que se faz com o não esperado? Com as dores de quem nasce diferente do que se espera? E com a dúvida do que será no futuro? Será que vai dar certo?
Filho é baú de surpresas. É combo de dor e alegria. Pedaço da gente visto de fora. Filho é desafio a todo momento. Filho é embate e aperfeiçoamento. Desafio, erro e vitória.
Testa nossos limites, nossa paciência, nosso silêncio e acervo de palavrões. Dilapida nosso saldo bancário, chupa nosso tempo de canudinho. Mas abraço de filho? Ai, não tem preço que pague.
Realmente, os piores momentos, ninguém tira foto. As noites em claro. Os choros que desesperam. As doenças de quando entra na escola. A vontade de mandar matar os coleguinhas safados. As dificuldades que vêm.
Fora o gosto que não combina comigo. A vontade de ir sozinho. Mas mamãe pode levar! O vácuo de ficar para trás. O vazio de ver partindo, mesmo que por pouco tempo. A vontade de que seja feliz.
A voz da mãe que, exausta, reclama é a mesma da que se delicia. Não
há mãe que não reclame. Que não queira uns segundos de sossego. Um minuto de paz. Um esconderijo secreto onde possa se esconder por meia hora.


Quem disser que não sofreu, mente. Quem disser que não gostou de nada, também. Porque ser mãe é assim: inferno e paraíso. Mar e sertão. Sol e lua. Ser mãe é aprender que quase nada me pertence. Mas que eu amo ilimitado e mesmo assim

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